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Falecimento do Prof. Dr. Nuno Portas

Falecimento do Prof. Dr. Nuno Portas

Falecimento do Prof. Dr. Nuno Portas (1934-2025)

 

Faleceu o Professor Nuno Portas. A Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa (FA.ULisboa) manifesta o seu pesar e estende à sua família, amigos e discípulos (e teve muitos), as suas condolências.

Muitas vezes, perante o infausto desaparecimento de um mestre, colega e amigo, costuma dizer-se ter sido uma personalidade marcante. Foi. Porém, Nuno Portas foi marcante de uma maneira que ultrapassa a fragilidade de todos os lugares-comuns que bem intencionados, legítimos e sinceros lhe podemos dirigir, honrando a sua memória. É que Nuno Portas foi uma pessoa  diferente, maior; maior do que o mundo que o rodeava, maior do que o meio da arquitectura e do urbanismo ao qual pertencia, esse mundo onde viveu e para o qual viveu.

Como investigador do LNEC (1963 e 1983), onde criou e animou o Núcleo de Pesquisa de Arquitetura, Habitação e Urbanismo, viria a fundamentar uma prática de profunda reflexão crítica que estendeu à sua atividade de professor, quando ingressa na Escola de Belas Artes de Lisboa (1965-1971) a que se seguiu o seu magistério, agora, na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, que ajudou a fundar, após lecionar no curso de Arquitetura da Escola de Belas Artes do Porto. Iniciava-se então um processo de afirmação do pensamento arquitetónico em Portugal, sendo responsável pela disciplina plurifacetada de Teoria e História do Urbanismo Contemporâneo que viria a dar frutos com ecos bem presentes ainda hoje, e não apenas junto daqueles que o conheceram ou com ele aprenderam, mas patente ainda nas novas gerações. Fez parte da história e fez a História da profissão projetando-a entre nós e internacionalmente, granjeando de enorme prestígio, sendo elevado a Doutor Honoris Causa pela Universidade de Aveiro, pelas Universidade do Minho e pelo Instituto Politécnico de Milão e galardoado com o Prémio Abercrombie e a Grande Cruz da Ordem do Infante.

Os seus escritos continuam hoje a ser de consulta obrigatória, seja em colectâneas, seja na introdução e divulgação dos nomes seminais da disciplina da arquitectura e do urbanismo.

Também se dedicou à política. Não poderia ser de outra forma, já que o seu empenho cívico impeliram-no a intervir publicamente, atendendo ao seu pendor humanista e à sua clareza pedagógica, que nunca se reduziu a um lugar de conforto académico, vindo a ser Secretário de Estado da Habitação e Urbanismo dos três primeiros governos provisórios, após a revolução de 25 de abril de 1974. Quem o conheceu sabe bem da sua vivacidade, do seu empenho democrático, e da sua eminente vontade de tornar o Pensamento em Acção, criando, com os seus colegas, o Serviço de Apoio Ambulatório Local (SAAL), um caso de estudo ainda hoje, e cada vez mais estudado e valorizado, enquanto marco progressistas das políticas europeias de habitação em situações de crise, como a que Portugal vivia (e vive). Resultou da necessidade sentida em reviver lições modernistas de forma crítica em que a sociologia jogava um importante papel, de refundar - como disse - , aquilo a que chamou “arquitectura urbana” tanto mais que uma das suas preocupações principias viria a ser não apenas o papel dos arquitetos no fomento de uma arquitetura moderna, mas especialmente no empenhamento que pretendia fosse prioritário no domínio da habitação social. Uma amplificação de escala, um passo além, participativo.

Atento a todas as correntes do pensamento contemporâneo onde pontificava pela sua versatilidade, problematizadora, intenção divulgadora  e capacidade de navegar por todos os domínios da vertente existencial e humana, foi também autor de obras de fôlego, trabalhando em equipas pluridisciplinares - Casa “de Vila Viçosa” ou Casa Dr. Barata (1958-1961); Igreja do Sagrado Coração de Jesus em Lisboa (1962-1967/1970;), e de processos urbanos (Olivais – 1960-63).

Uma coisa era certa: ouvir, conversar e ler Nuno Portas foi e será uma receita para aprender.

Apetece relembrá-lo, para sempre, de olhar vivo e interpelante; relembrá-lo para sempre, com o seu cachimbo.

Lisboa, 27 de julho de 2025,
Paulo Pereira 

 

 

Morreu o Nuno Portas

Hoje em dia é improvável, embora fundamental alguém surgir assim, como ele; assim.
Defendeu o que se defende e defendo.

Sobre isto, escrevo:
Quem tem um projecto, define o mundo.
Quem tem uma prática, é condicionado pelo mundo.

Lisboa, 27 de Julho de 2025,
Miguel Baptista-Bastos

(P.S.- Disse-me que um dia ainda ia fumar cachimbo!, Aguardo, talvez, pela minha decisão.)

 

crédito fotográfico: © Reprodução Instagram/ Helena Sacadura Cabral

Date

27 julho 2025

Tags

Notícias

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